Não foi por maldade

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Não foi por maldade que ele a olhou profundo e disse que queria passar a vida com ela.
Não foi por maldade que os olhos brilharam.
Que o mundo rodou.
Que nada importava mais que aquele encontro.
Combinado numa fila no céu, diziam.
Era muita sorte, sentiam.
Não foi por maldade que falaram em casamento.
Que encheram seus dias de novos jeitos, apelidos e manias.
Que riram de doer a barriga.
Que se amaram como bichos.
Que se aninharam com doçura.
Não foi por maldade que ele quis que aquele encontro fosse diferente e melhor do que qualquer outro que ela porventura tivesse vivido.
Não foi por maldade que lhe deu o poema mais lindo do mundo e o Taj Mahal.
Não foi por maldade que ele calou.
Que colocou tudo em dúvida.
Que disse que não tinha como salvá-la e sumiu.
Que apagou suas fotos.
Que a jogou num envelope, num fundo de gaveta.
Não foi por maldade que com tudo morando na dúvida, ela seja uma das únicas certezas.
De que não.
Um não que nunca soube dizer pro mundo.
Escolheu ofertar a ela.
Um sonoro, resoluto – e segundo ele, justo – NÃO.

Um amor assim violento

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Te amo nos detalhes.
No balançar das músicas.
No meu cabelo solto.
No pescoço à mostra.
Te amo no primeiro acorde.
No último sorriso.
Ao me vestir.
Ao me despir.
Te amo no meu espelho sem recado de batom.
No box grande.
Na cama imensa, com luzinhas apagadas.
Na saudade de guaraná quente.
No vestido de verão.
No fio de cabelo no chão.
Na bituca do cigarro.
Na maionese imperfeita.
No caminho diário.
Na voz de aplicativos.
No trânsito dos paulistas.
Na voz de Caetano.
No tênis velho. Na bota nova.
No lixo pra jogar fora.
Nas caixas na garagem.
Te amo num dado. Num três vermelho. Numa taça. Num gole seco.
Te amo no medo e na coragem.
Te amo quando chove e prendo em mim um “respira. é só chuva. não vai acontecer nada de mal”.
Te amo nos raios da minha Iansã.
No colo do meu anjo da guarda.
No sucrilho da minha infância.
Na vitrola sem agulha.
Na tarde de sol.
Na solidão da noite.
Na ameaça de terremoto.
Te amo no movimento dos planetas e no horóscopo mais vagabundo.
Em cada doído silêncio.
Em cada toque que não é teu.
Em cada pensamento imundo.
Em todo o profundo.
Te amo na velhinha da venda.
Na batata que sempre foi minha.
Na alface que envelhece na geladeira.
Nas minhas (des)cobertas.
No enquadramento da foto.
Nos elásticos e gatos.
Nos parques e lagos.
No lusco fusco.
No preço da gasolina.
No carro da auto-escola.
No rádio.
Na tv.
Te amo no meu cheiro.
Na camiseta de dormir.

Te amo no que gosto e no que não gosto.
Em tudo que me foi proibido te dar.
No que sufoca.
No nó no peito.
No que me mata.
Te amo no quanto te odeio.
Te amo no vazio.
Mais sozinha do que nunca.
Tão sozinha quanto sempre.
Te amo pra ninguém.

Ensaio sobre a cegueira

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cegueira

( Ou: O QUE VOCÊ VÊ, QUE VOCÊ NÃO VÊ…)

Depois do fim, ele implorou que eu me acalmasse.

Como?!?, gritava minha alma.

Não pode ser!!!, tremia meu corpo.

E aquilo tudo que a gente era?, miava sem força meu coração.

Ele não tinha certeza. Talvez porque todas estivessem comigo.

Buscou a sorte num realejo. Azar o nosso.

Tive muita raiva. A tristeza nunca me pareceu tão devastadora. Teve música alta. Teve grito no escuro.

Cheguei a pensar que algum vizinho chamaria a polícia. Devia ser briga. E era. Minha comigo.

Teve descontrole virtual. Teve choro no meio da rua. Teve escala de amigos (ainda tem, ninguém tá dispensado).

Teve colo de mãe.

Teve desespero a cada (incabível) pensamento.

Teve soro caseiro.

Teve gosto de lágrima.

Dez intermináveis dias se passaram. Ainda tem tudo isso, em versão acústica.

Ou me acalmava, ou enlouquecia.

Sempre tive mais intimidade com a segunda opção, mas entendi que ela me afasta de mim, mais ainda do que dele.

Entre tantos textos lidos durante esse tempo (porque a gente fica querendo explicações e culpados), um sentou no meu colo.

Me olhou profundo. Me desmontou. E decretou o até então impensado: culpada.

Eu não ouvi o grito silencioso. Não li o olhar, onde só via (a)mar.

Vi tarde demais. Ele tava certo. Eu também estava olhando pro meu umbigo.

E não vou me perdoar tão cedo.

Se todo perdão tem que vir do coração, o meu tá inconformado com tanta cegueira.

Tipo assim

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Não passou pela minha cabeça que você fosse desse tipo.
Esse tipo de ter que esquecer.
Esse de me doer.
De me jogar lama verde no meio do baile.
De me empurrar ladeira abaixo e deixar eu me esborrachar sem olhar pra trás.
Esse de andar em linha reta como tropa de choque que atropela criança.
Franco atirador que pisa em flor.
Esse, de amassar barquinho de papel que não navega pra onde você deseja.
De me arrancar a fé. O riso. O norte.
De quebrar minha boneca preferida e rir.
De esfregar tua bola nova na minha cara.
De compor músicas que nunca vou ouvir.
De fazer com que eu me sinta burra (eu não disse inocente. Disse burra, de boca cheia).
De me obrigar a silenciar quando tudo quer amar.
De me abandonar sem mapa.
Sem prumo.
Sem eixo.
Esse.
De ter que me virar sem você.
Desses.
De levar a vida sem mim.
E achar melhor assim.

O bem também se corta pela raiz

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Plantaram uma árvore, já que não teriam filhos e os livros estavam sendo escritos.
Ela deu fruto. Deu sombra. Deu foto. Deu coração riscado no tronco.
Deu flores brancas e vermelhas.
Ele só gostava das brancas.
Passou a odiar as vermelhas.
Ela não suportou ver ódio onde plantou-se amor.
Olhou pra árvore. Fechou os olhos. Vibrou a palavra nosso.
Eternizou-a. Eternizou-se. Criou raízes.
Deu cinco machadadas fatais na árvore mais linda que já teve.
Coitada. Ela dava flores vermelhas.

Festa com convite

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Ela gostava de se arrumar pra ele.
Se enfeitava pra lua.
Pra rua.
Um tanto pra ela.
Muito pra ele.
Se aprontava pro imprevisto.
Pro encantado.
Pro provável.
Pro vai que.
Estava sempre pronta.
Caso ele aparecesse.

Porque diante dele o traje, e tudo nela, era festa.

Suspensos quereres

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Queria ter cozinhado pra você.
Escrito pra você.
Adormecido por você.
Queria arrumar teu filtro.
Conter meu grito.
Pulsar teus dias.
E ainda ser teu respiro.
Queria vender tua obra.
Te fazer uma massagem.
Te comprar camisetas.
Ouvir teus discos. Te dar poemas.
Brincar de cabana no quarto rosa.
Dançar sem música.
Andar sem chão.
Voar com porto. Navegar com cais.
Diminuir meus açúcares e sais. Acalentar teus ais.
Queria, abusada, ter te registrado em PB.

Queria mesmo era ter te conhecido a tempo de festejar teu dia e poder ter te dado um abraço apertado naquela doída despedida antes de nos conhecermos.

Sem olhar pra baixo

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Ponte Zizi

Empaquei.
Empaquei em mim.
Num pedaço de mim.
Num que eu não conheço.
Que quer ir pra frente e tem se apresentado de forma violenta.
Quase cruel.
Mal criado.
Abusado.
Que saiu de um quarto escuro e chegou revirando tudo.
Que impõe metas. Que me entontece.
Me tira o chão, oferece uma ponte e ignora meus medos de altura diante do que bambeia.
Tô sozinha. Tem um precipício embaixo.
E eu preciso acreditar que vai dar certo, sem saber onde vai dar.
… Vai dar.

Tudo posso naquele que me fortalece

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Se mulheres e homens sofrem constante mutação, é natural que os jogos amorosos – e quando eu falo jogos, não me refiro a joguinhos – também se alterem.

Sinais que eram claros, hoje podem gerar um mal entendido danado.
Ele pode te querer e não aparecer no dia seguinte. Ele pode não te querer o tanto que você quer e te mandar mensagem todo dia.
Ele pode não te responder na hora. E não, isso não quer dizer que ele não está nem aí. Talvez ele só esteja ocupado.
Ele pode, veja só, te ligar. E você, nesses tempos modernos, pode ter desacostumado a isso.
Ele pode comer o mundo e meter uma aliança no teu dedo.
Você pode ser a bola da vez. Pode ser a comida do mês.
Você pode ser a pessoa certa pra vida dele. Com muita sorte ele pode ser o melhor pra você.
Pode ser milhões de coisas e não saber. Ser outras tantas e não querer. Pode acreditar ser o que não é.
Pode se encaixar numa carência dele. E dependendo do tamanho da sua, caso você a tenha, pode ser muito bom.
Os encaixes é que importam e alimentam tudo.
Você pode tudo e nem tudo tá na sua mão. Arrisco dizer que, fora o topar ou não, bem pouco.
Pode ser simples e lindo. Curto e intenso. Longo e tranquilo. Pode ser só teu. Pode ser absolutamente dos dois.
Arrebatador ou construído.

Pode dar medo. Pode dar coragem. Pode dar merda. Pode dar certo.

Pode uma imensidão.

Eu só sei um jeito de descobrir qual é: pagar pra ver.

Nunca te ouvi, sempre gostei

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Ainda escuto tua flauta tocando minha melodia imaginária.
A imaginação ameniza tua ausência e o não tocar de telefones, campainhas, almas e corpos.
Ainda não me livrei por completo do imaginado, tampouco do dito e do pouco vivido.
Tudo bem.
Sei que essa faxina é demorada.
Não sou boa de limpeza pesada, mas me conforta saber que não acumulamos poeira.
Ando passando pano e varrendo em volta dos móveis.
Não varri nada pra debaixo do tapete, mas confesso ainda não ter conseguido arrastar cama e sofás.
Nem limpei como se deveria os cantinhos. Eu sei.
Mas tenho conseguido disfarçar bem.
As visitas não reparam e os amigos me conhecem.
Dá pra dar festa. Dá pra acolher.
Pra tomar a saideira.
Pra morrer de rir.
Pra encher a sala de música.
Ninguém precisa saber quando eu danço de walkman.

Namastê geral

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Desde muito pequena minha mãe me deu noções de religião.
E que me perdoem os que acreditam em culpa e perdão, mas quando falo de religião sou um pouco mais abrangente. Ela também. Graças a Deus.
Sempre comemorei Natal, com roupa nova, presente na árvore, abraço de vó, casquinha de siri e família me acolhendo. E, pasmem, reverenciei aquele menino aniversariante em sua manjedoura. Cresci achando que ele foi um cara muito bacana. Não sei se o mais bacana do mundo. Sei tampouco absolutamente tudo sobre sua vida.
Mania besta essa de querer saber tudo sobre a vida. Qualquer vida.
Assim como ela me falou de Cristo, budas, sidarthas, fadas, orixás e anjos, me falou sobre gente. Me mostrou tudo quanto é tipo de gente.
Fui virando gente me misturando com gente.
O garçom simpático, que eu nunca soube se era casado. O zelador do meu prédio, um senhor que me abria um sorriso largo desde sempre, que tinha esposa e duas gêmeas lindas. O perueiro, que tinha uma cicatriz enorme no meio da cara, que por mais que eu me perguntasse como diabos aquilo podia ter acontecido, o percurso agitado de todo dia me varria do pensamento qualquer julgamento. Os amigos dela, de jeitos tão variados e divertidos. O diretor do terno rosa, minha madrinha que sumiu no mundo, a manicure sempre cheia de histórias. A amiga solteira, que teve um cancer e morou na nossa casa por anos. O guru astrólogo que fazia perfumes. Meus avós, que durante os finais de semana me cuidavam e me ensinavam amor. Minha Maria, que me botava pra dormir, fazia minha comida, me deu um irmão e virou minha mãe preta.
Foi olhando de perto pra todo tipo de gente, que aprendi respeito, família, fé e afeto.
Sorte? Talvez, pra quem acredite em sorte.

Foi convivendo com gente de todo tipo – gordos, magros, anão, casados, solteiros, vagabundos, talentosos, gente que acorda cedo, gente que vai dormir de tarde, fumantes, gente meio perdida, gente completamente incrível, muito pobres, muito ricos – que eu virei gente.
Um tipo de gente que olha pra você, sem que você precise ser igual a mim.

Doce rodopio

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Guardei um ou dois olhares teus numa caixinha de música.
Vez em quando boto a bailarina pra rodopiar e me permito ser docemente olhada por ti.
Às vezes, no dia-a-dia, confesso imaginar como seriam os futuros olhares que ainda não tenho pra guardar.
Te imagino me vendo dançar, trabalhar, me observando no boteco desbocada com os meus, rindo de mim no trânsito,
velando meu sono ou até mesmo me abraçando macio quando acordo assustada.
Reservo um espaço otimista na caixa.
Pode ser um jeito – ilusório e perigoso, eu sei – de te ter por perto.
E se inventei uma maneira de que você só me faça bem, tudo bem.
Eu topo. E rodopio com a bailarina, aprendendo jeitos delicados de guardar tesouros.

Embora haja tanto desencontro

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Tem eu.
Tem você.
Tem eu, antes de você.
Você, antes de mim.
Tem a gente, antes da gente virar a gente.
Tem a gente depois da gente.
Tem todo o nosso durante.
O nascimento do afeto. O cuidar, o ser cuidado.
Cuidado. Tem o descuidar.
Tua liberdade. Minha urgência.
Teu compasso. Meu descompasso.
Tua vontade de voar.
Meu desejo de aportar.
Meus medos.
Teus medos.
Nossos novos medos dançando com fantasmas antigos.
Medos mudos, gritando no silêncio frio.
Tem os retratos do que já foi, ocupando lugar de destaque no meio de tudo.
De um tudo que parecia ter sumido no nosso brilhar.
Tem o tempo.
E tudo que será da gente.
Será?

 

Finados

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Finado seja tudo que me tira o riso.
Que me afasta do sonho.
Que me abandona no frio.
Finado seja tudo que me arrasta prum cinza que não contenha a beleza de um dia de chuva.
Finada a pausa não preenchida.
O texto mal dito.
O blecaute no meio, se achando moderninho.
Finado seja o telefone mudo, se passando por criado.
A estante com livros não lidos.
Finada a perna bamba que não esteja diretamente ligada ao prazer.
Finados os medos antigos que não aceitam luz e pulam do armário na calada da noite pra assustar a menina que tem medo de escuro.
Pá de cal nas mágoas curadas. Nos desamores passados. Em tudo que não aceitou afeto ou perdão.
Um Pai Nosso a cada passado. Vivido ou interrompido. Findo.
Flores ao que deixou saudade.
Paz ao que pareceu maldade.
Finado o luto que me prende ao pretinho básico.
Vestido verde e rodado, flor rosa no cabelo e um samba da Mangueira anunciando novos futuros.

 

Sou Dessas

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Sou dessas. Dessas de abrir.
Abrir latas. Portas. Caminhos. Sorrisos.
Dessas de abrir mão, mesmo com dor no coração.
Abrir chão, com colherinha de plástico, até achar o Japão.
De marretar paredes abrindo vão.
Abrir breu, caçando solução.
Abrir mensagem no meio da multidão.
Sou do pranto em explosão.
De acreditar em plena confusão.
E abrir gaiolas, por não acreditar em prisão.
Dessas de abrir nova conta pra evitar discussão.
De escancarar todas as janelas pra sair da escuridão.

 

De repente, você

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Um número esquecido e desconhecido piscou na tela do aparelho.
Depois de dois alôs, silêncio. Desligo, concluindo engano.
O número insiste. Atendo. De repente, você.
Tua conhecida voz, teu jeito, nossas risadas.
É diferente. Palpavelmente diferente. Mas reconhecemos os temperos do que, um dia, saboreamos com delírio e deleite.
Tava lá nosso agridoce com óleo de gergelim.
Menos apimentado, em versão gourmet controlada.
Tava lá. Nosso melhor com adesivo indicando “padrão exportação”.
Tava lá, nosso amor com glúten.
Ouvi dizer que faz mal.
Mas há males que vêm pra bem. Dizem também.
Teu nome voltou pra minha agenda, num ano que levou tanta gente e me devolveu um tanto de você.

Do suspiro que antecede o perdão

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No meio de uma alegre solidão, esbarrei em você.
Você, que eu já tinha descartado até como possibilidade de boa lembrança.
Você, que eu mandei plantar batatas numa horta distante.
Esbarrei na recordação de como te amei. Inteira, musical e risonha.
Do quanto eu me sentia feliz por, em tantas e perdidas vezes, ter-te.
Lembrei do quanto éramos, juntos. Da nossa imensidão dividida.
Do quanto somávamos um ao outro.
E se eu duvido de uma montanha de coisas -entre as ditas e as sentidas- uma me é certa: fomos o melhor de nós.
Fiz onda em alto mar.
Você me deixou a ver navios.
Agora, aqui, diante dessa máxima, me senti pronta pra encarar de frente o fantasma de nós.
Nós, que fizemos tantos laços, nos desembrulhamos, brincamos de cama de gato e nos deixamos embaralhar num emaranhado, cuja solução -decretada por ti e aceita por mim-  foi não olhar pra trás. Pra nós.
Fiquei amarrada por muito tempo. Naveguei em outros mares. Senti raiva de ti. Nojo. Saudade.
Questionei o destino.
Cheguei a trocar as pragas pelo real desejo de que você estivesse bem.
Me desatei. Me rasguei. Me reencontrei.
E torci pra que você nunca mais voltasse.
Você estragaria tudo, com teu jeito de me embaralhar e me fazer ainda mais feliz.

Antenada

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Por motivos de “meu celular quebrou”, saquei do baú o velho aparelho com antena.
E lembrei de um tempo em que não havia tecnologia de ponta que me fizesse mais feliz que teu nome piscando naquela tela velha.
Paro. Respiro. Coloco os pés no chão. Recolho o pipa da saudade.
Olho pra tela, sem você.
Você, que o tempo carregou. Que o vento me bagunçou.
Você, velho e sem antena.
Que não comunica e não me serve pra nada.

Apagando Você

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Embalada por Mart’nália, me ouvi dizendo que “não. não te quero mais…”.
E saí transformando tuas encantadoras manias em insuportáveis defeitos.
O frescor com que você conta as mesmas engraçadas histórias?
Repetitivo. Chato.
Todo o teu tempo diferente, de quem leva a vida com leveza?
Viajandão. Chato.
Teu viver com as mesmas poucas roupas há anos e estar sempre lindo?
Sem graça. Chato.
Toda a tua sabedoria, teu querer ensinar, teu questionar verdades ditas absolutas, teu circular questionar?
Velho chato.
Todo teu modo peculiar de ser, teu isolar-se na essência, tua música não dividida, teu silêncio absoluto, tua sacro solidão?
Egoísta. Chato.
Teu lado reservado, teu não conviver, teu não se comprometer?
Covarde. Chato.
Teu não mandar flores, mas dizer que me ama sem querer que expectativas sejam criadas?
Filho da puta. Chato.
Minha dificuldade em lidar com tudo isso?
Eu sei.
Chata.

 

Acorda Toda

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Nunca tivemos nada. Mas ele me despertou uma conhecida vontade de romance.
Se pra espantar tristeza eu fiz ventania, com ele era brisa o que eu queria.
Ver seus filmes prediletos em tardes de domingo.
Por do sol na praça, alaranjando o azul.
Preguiças declaradas embaixo de edredons.
Pernas trançadas em lençóis quentes.
Luz de velas nas mesas, nas camas, nas almas.
Trocar histórias e figurinhas sem pensar na hora. Jogar relógios e calendários fora.
Tive vontade de todos os beijos. Do primeiro ao penúltimo.
Quis vestir sua camisa e me aninhar no seu peito, depois do amor refeito.
Mesmo que nada de fato aconteça, voltei a sonhar mãos dadas e um buquê de humor perfeito.

Mirei poesia, Cacei prosa.

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Ele surgiu na minha vida num raio de sol em forma de cd.
Polaróides eternizando registros de amor.
Felicidade cantada.
Acordeon adocicando meu mundo.
Parceria iluminada com Laurinha, a menina passarinha.
Cantei como se não houvesse amanhã.
E se houvesse, que bom, o cantaria de novo.
Alto. Sorrindo. Em casa. No banho. No trânsito.
O espalhei entre amigos, parentes e conhecidos.
O dividi com quem também explodia na surpresa de tê-lo.
O mundo girou. Que ele é disso, de girar.
Outro cd. Outra forma de cantar. Tantas outras coisas pra dizer. Pra cutucar. Pra sorrir. Pra somar e dividir.
O moço do coreto se mostrou ousado entre sombras, brilhos e barbas.
Quem me lembrou que a gente é “feito pra acabar”, me gritou que o melhor da vida é “de graça”.
Se era “questão de ser”, era chegado agora o tempo de perceber.
Ele, com ela, de novo. Me fazendo pular. Sorrir. Explodir. Me lembrando infinita e mortal.
Arrisquei uma parceria inusitada. A vida, de tão generosa que é, me deu teu sim.
Me deu café, me mostrou outro tempo, me chacoalhou no meio da correria.
Olho no olho. Papo gostoso. Leveza comprometida com a vida.
Ele não veio a passeio, mas sabe passear com a calma de quem tem o mundo.
Fui atrás de poesia, encontrei prosa.
Amém, meu menino sanfoneiro.
Celebremos.

Tempo de Despedida

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Difícil não é não tê-lo.
A isso fui me acostumando aos poucos.
Por falta de opção, convidei tua ausência pra tomar cafés e chopes.
Viramos amigas. Íntimas. Confidentes. Choramos pitangas e rimos de ti.
Difícil é me despedir, também aos poucos, da parte minha que se fez tua.
É vestir a parte que se despiu.
Calar o que era de falar.
Nublar e chamar pra um chá o que sonhou com o mar.
Difícil é guardar nosso álbum, até que os retratos ganhem tons envelhecidos,
na esperança de que o sépia nos devolva a beleza.

Difícil é cavar sorrisos e não desabar no portão do embarque, ao me despedir da doce parte, fingindo um “até breve”.
Difícil é não esperar cartões postais. Nem de ti, nem desse pedaço de mim.

Vomitando Sapos, Esquecendo Príncipes

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Fui acusada de desacato.
Aleguei legítima defesa.
Cada um se defende como pode. E eu possuo poucas armas contra o desamor.
Uso das palavras pra me defender das indiferenças.
Da poesia pra colorir dores.
Do grito pra disfarçar os silêncios.
Do sorriso pra afastar a tristeza.
Dos clichês pra rir de mim mesma.
Armas brancas, babe.
Bala de borracha.
Um quase abuso do efeito moral.
Gás que não te lacrimeja, mascarado e protegido.

De único a qualquer um

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Achei que fosse demorar um pouco mais.
Mas entendi. Até mais do que eu queria entender.
Como qualquer um, lá está você, em outra paixão.
Se atirando em novas cores. fortes e vivas.
Encantado pelo momento.
Cheio de discursos espirituais e espirituosos.
Cheio de palavras melosas. Elogios escancarados e públicos.
Pronto a nutrir sorrisos, pro próprio ego, que explode em festa com galanteios.
Pronto a alimentar sonhos como quem não está fazendo nada.
Pronto pra jogar limpo, depois de se refastelar nos mares da sedução.
Coisa de moleque. De tiozinho que brinca de ser moleque quando convém.
Como qualquer um. Que come qualquer uma, fazendo-a sentir-se única.
Única pelo tempo que durar teu desejo.
Única, até te cobrar o que você não tem pra dar, depois de ter acostumado a receber teus derretidos olhares.
Única a acreditar estar vivendo algo único. Que ninguém nos tira, não é? Sei.
Mais uma, única.
Mais uma a acreditar em você e ir, por vontade própria, pro abismo do silêncio achando que tá num bosque caminhando de mãos dadas.
Sim, eu tô ferida. Mas vai fazer casquinha. Enquanto você, macaco véio, pula de galho em galho descobrindo tesouros e apagando sorrisos.
Pirata de araque, como tantos outros.
Egoísta, como poucos.
Homem, como qualquer um.

Versinho

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Cansei de rimar
Amor com dor
Alegria com fantasia
Vou deixar o amor no andor
E a alegria no dia a dia.

Das Promessas Silenciosas

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É. Você não me prometeu nada.
Muito pelo contrário. Disse inúmeras vezes pra que eu não esperasse nada de você.
Nada.
Não me prometeu nada quando veio até a minha casa pra saber se eu estava bem, quando eu não apareci no horário previsto.
Não era nenhuma promessa o teu olhar apaixonado numa lanchonete azul.
Tuas mãos não me prometiam absolutamente nada ao passear pelo meu corpo. Tantas vezes.
Nada foi prometido em nossas horas de preguiça e deleite, nos cafés com pão regados a histórias repetidas e risadas macias.
Nas amorosas mensagens de bom dia. Boa noite. Boa vida. Bom tudo.
Na nossa coleção de agoras. Nos nossos presentes.
Você não se lembra mais da primeira vez, acho. Você, ao pé da escada, me dizendo que teu único interesse era dar. Pouco se importava em receber.
Eu te perguntei, na lata: dar o que? o que eu quero receber, ou o que você tem pra dar?
Você me achou inteligente.
Por muito tempo você me achou inteligente.
Me deitou na rede e me falou, com ares de professor, que a mágica da vida era a possibilidade do balanço.
Eu topei. E balancei. E prestei atenção nos ventos e silêncios.
Porque até nas pausas eu sentia a brisa das possibilidades.
Várias. De um jeito nosso. Reinventado.
Muitas vezes fui nós sozinha. Deitada na rede, ouvindo o sino dos ventos.

Me devorou lentamente, enquanto teve apetite.
Se fartou de um amor dito sublime, pediu a conta e saiu andando.
Se apaixonou. Viveu tua paixão. E foi embora me dizendo que a vida é assim.
De inteligente, bela e divertida passei, a seus olhos, a ser um bando de desejos descontrolados.
Uma fumante, bêbada e sedentária.
Chegou me propondo o novo. O não pensado. O etéreo. O essencial.
Me ofereceu o velho e empoeirado “você quer, eu não vou”.
Devo ter lá minha parcela de culpa na poeira acumulada.
Não.
Não há culpa.
Não há regra.
Não há móvel azul.
Não há conflito.
Não há possibilidade de balanço.
Não há tempo.
Não há nada. Absolutamente nada.
Eu. No nada. De novo. Nadando.

Me prometeu nada e me deu exatamente isso.
Nada é tudo que se oferece quando é a única coisa que se tem pra dar.

Brindemos

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O que dizer de um ano que começa com estreia e termina com leitura?
Um ano que foi tão generoso ao me dar um amor, com prosa em risonhos cafés da manhã.
Que me mostrou outros tempos, outros jeitos de olhar. De levar. De ser.
Um ano que me fez, o tempo todo, olhar pro agora. Agora!
Não como se não houvesse o amanhã, mas como se fosse um absurdo estar no agora sem viver o agora.
E, olhando pro agora, me fez entender a palavra presente. E me deu presentes pra abrir.
Me deu Nova York com meus irmãos. Piquenique mágico. A vida de mãos dadas com ela.
Deu a possibilidade de fazer as pazes e entender de vez que algumas coisas e pessoas não são de voltar.
Me deu um neon piscando a palavra impermanência. Pra que eu não me esqueça.
Deu trabalho, do de suar o crachá e do de repetir até acertar.
Me deu grandes oportunidades e cachorras pra vida toda.
Me deu duríssimas despedidas. De vô e tio.
Deu mãe na novela e numa parceria certeira.
Deu Salvador com por do sol e amigos. Show de Nero e carinho de Leo. Me deu família On the Rocks em casa.
Almoço em especial dezembro. Mensagens de vibrar e acalentar.
Me deu sopro de vida. Brisa de tempo. Vento do Oriente. Livro de cabeceira.
O que dizer?
Obrigada é tudo que cabe na boca e explode no peito.
Seja muito bem-vindo, ano novo.
Tô a postos pra continuar trilhando, colorindo e musicando caminhos.
Que venham novos enredos e se firme o que é de se firmar. O que é de amor. O que é de luz.

Tarde sem Filtro

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Eu podia ter olhado só pro lado bom.
Você ter lembrado de mim, numa linda tarde de sol.
Você ter lembrado de mim, numa linda tarde de sol e ter sentido saudade.
Você ter lembrado de mim, numa linda tarde de sol, ter sentido saudade E ter me dito.
Podia. Eu sei fazer isso. Sou bem boa nisso, aliás.
Mas tinha um engasgo enorme do meio da garganta.
E acho que já engoli minha cota de sapos e ausências nesse caminhar.
De agora em diante só os inevitáveis. Ou os que me passarem a perna quando eu estiver distraída.
A parte boa é linda. Me ofusca. Me preenche. Me inunda.
Mas tenho a impressão de que foi ignorando a parte ruim, que ela tomou conta.
Cresceu como mato, avacalhando nosso florido jardim.
Definitivamente, preciso olhar pra isso. Cortar o mato, pra saber se ainda dá flor.
Se dá fruto. Se dá pé.
Estar contigo é céu estrelado, com sorriso de lua.
Mas a escassez dos encontros me trouxe a necessidade de terra firme.
De pé no chão.
E, acredite, isso pra mim é novidade pura.

Mania de Você

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No fundo, sempre procurei você.
De tanto te procurar, te achei em vários.
Você já foi sonho.
Já foi primeiro amor e primeiro beijo, em festas da adolescência.
Já foi o cara que fez meu mundo girar.
Já me tirou o ar, o sono e o chão, tantas vezes.
Já foi telefone mudo e grilo falante. Explosão e implosão.
A tão dita arte do encontro, embora haja tanto desencontro.
Você já foi um engano. um trote. uma cavalgada. Já foi sujo. Puto. Pobre.
Belo. Foi doce companhia e triste solidão.
Foi o melhor ator do mundo. O melhor amigo. O melhor melhor.
Tantas vezes você me foi estreia. Eu, quicando entre exclusivas apresentações e longas temporadas.
Já fomos casa cheia. Já zeramos borderôs.
Tivemos torcida organizada e passeata contra.
Você foi choro na chuva. Traição. Amor à terceira vista.
Foi riso descontrolado. Foi pequeno, pra que eu fosse imensa. Foi melhor e pior que eu, mais meu, mais teu.
Foi luz no fim do túnel, com almoço na cantareira. Tantas e tantas vezes você foi o fim mais doído.
Foi um Rio, em janeiro. Foi meu descontrole. Minha válvula. Meu escape.
Invadiu minhas músicas e foi meu erro, meu vício. Foi mais do que eu sei, bem mais que pensei.
Já foi belos acertos. E foi, sempre, minha mais linda tentativa e entrega.
Mas cansei de olhar pra você. De vestir teu terno em outros.
Cansei de te procurar. De pagar qualquer preço. De fazer crediário no teu nome pra pagar sozinha.
Parei de ajeitar teu lado da cama. Deitei no meio. Esparramada.
Escondi teu pijama.
Resolvi ser feliz com uma escova de dentes.
Me servi um banquete. Abri um vinho. Liguei o som.
Escrevi no espelho do banheiro, com batom vermelho: te amo!
Botei meu vestido mais bonito e fui. Pra rua. Pra lua. Pra mim.
E se um dia eu trombar com você, por favor, me chame. Eu posso estar deliciosamente distraída.

Navegar é preciso

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Entendi.
Entendi teus silêncios, tuas solidões, teus limites, teus respiros.
Tua vida sem grades, sem regras, sem amarras.
Entendi grande parte do que você, escancarando ou ocultando, me mostrou.
Você, que não é disso. Eu, que pareço ter sido feita pra esse troço.
Sonhei carimbar meu passaporte, atravessando tuas fronteiras. Fazer turismo no teu mundo.
Cheguei a pensar em pedir cidadania.
Marinheira cansada, querendo fincar bandeira em terra de ninguém.
Tanto mar entre o entendido e o desejado.
Tanta onda chacoalhando meu barquinho.
Tanto entre o navegar e o terra à vista.
Tanto entre o ser e o pode ser.
Entre ser e estar.
Entre o estar e o deixa estar.

Cabe na Mala

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mala

Quinze pares de meias e a saudade do caçula. Vestidos coloridos, colares e brincos que sempre ajudam a imprimir quem sou.
Cabe a alegria de estar junto aos meus irmão de sangue, infância e vida, e às irmãs que essa mesma vida me deu.
Cabe, finalmente, o brinde dos irmãos.
Cabe a sorte de poder estar ali, de novo. Os planos e a tranquilidade de se deixar levar.
O projeto de um pic-nic. Um dia de fantasia.
Cabe, sempre, um pretinho básico, aquela calça que não amassa e um sapato confortável.
Cabe uma trilha sonora encomendada, o livro de cabeceira, um caderno de anotações com páginas sedentas por tinta.
Cabe o excesso feminino, que ainda acha que vai ter espaço pra tudo, que por ventura ou descontrole, resolver trazer.
Cabe coisa pra cacete, como em coração de mãe, mesmo que precise sentar em cima pra que tudo se ajeite.
Na bagagem de mão? Documentos, hidratante, um batom pra chegar com cara de gente, palavras cruzadas. E um amor, que eu gosto de levar comigo.

Dos Quereres

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Gosto de estar aqui, nesse mundo, nessa vida, nesse corpinho.
Hoje, mais do que pensar mais no que tenho do que no que não tenho, resolvi pensar no que gostaria de ter, independente de ser ou estar só.
Olhar pro que não tenho, botando luz, é uma forma de combinar futuros.
E que fique claro que eu topo mudanças. Aceito surpresas. Negocio trocas.
Pode não ser nada disso. Posso ser deliciosamente surpreendida pelo não desejado.
Mas agora? Desejarei futuros, sambando na cara de possíveis frustrações.
Há tanto pra se viver. Há tanto pra ser. Tanto pra virar e revirar.
O que desejo, contando apenas comigo e essa luz que me habita?
Desejo uma lambreta antiga, flores na mesa de jantar, fotos eternizando instantes nas paredes da casa.
Uma viagem à Índia, outra ao Tibete. E todos os lugares, em mim, que elas me ajudarão a chegar.
Um retorno à Roma e os chacoalhões que nos dão os de Saturno.
Estrelas de papel num céu na sala.
Um tempo pra meditar.
Meu nome impresso em programas de peças que ajudarei a tirar do papel.
Desejo sorriso de lua em noites no campo. Balanço de rede e cheiro de mato. Um canto no meio do verde. Todos os cantos que me moram.
Estradas livres para meu ir e vir.
Desejo saber mais sobre Buda, Gandhi, os mestres ascencionados e tanta gente batuta que pisou nessa terra e fez valer a existência de forma luminosa e generosa.
Desejo pitadas de rock, pra firmar os pés na terra e não virar balão de gás que some no azul.
Lindos livros, que me façam viajar debaixo do meu edredom.
Agoras recheados de amor, que não dependam de respostas de outrem.
Desejo festa com bexigas. Chopes sem espuma. Moleskine a postos.
Roupas coloridas e badulaques mil.
Desejo batuques sagrados e profanos. Músicas que me levem pra passear.
Desejo o movimento do mar. E do amar.

All In

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Apostei que distrairíamos o tempo com nossos mais cinco minutinhos e tic-tacs trancados no armário.

A LOUÇA SUJA DE HOJE É O PESADELO DE AMANHÃ.

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A frase que dá título ao texto é do filho de um conhecido meu. Ao menos assim me foi apresentada.
E dita, muitas vezes, na minha cozinha.
É, meu caro, tem quem faça isso com as relações.
Tem quem cuspa no prato que comeu, mas tem também quem use, se lambuze e não lave a louça.
Tão melhor seria tudo sempre em pratos limpos.
A louça se amontoando no tempo e na pia, cria crosta. Fungo. Dá vontade de sair correndo.
Dá a impressão que não é com a gente, de que não seríamos capazes de juntar tanta sujeira e um covarde desejo de chamar alguém pra fazer o serviço.
Fato é que se você não meter a mão na bucha, o que restará de doces banquetes e deleites, não serão lindas fotos e sépias lembranças.
Restará lixo amontoado, gritando por água. Desengordurante. Qualquer coisa que clareie e devolva o brilho.
Para que tenhamos onde degustar futuros. Próximos sabores. Novos manjares. Manja?

Chuva de Arroz

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Sim.
Me aceito.
Me prometo ser fiel.
Na saúde e na doença.
Na riqueza e na pobreza.
Na alegria e na tristeza.
No jardim florido e no quarto escuro.
Na coragem e no medo.
Na crise e na cura.
Na luz e na penumbra.
A dois e a só.
No silêncio e no que grita.
No que fala e no que cala.
Na explosão e na implosão.
Na tempestade e na bonança.
No que falta e no que sobra.
No que resta e no que virá.
Em tudo que foi e no porvir.
Na dúvida e na certeza.
No que nega e no que afaga.
Na essência e no evoluir.
Na imensidão e na pequenez.
Na amargura e na doçura.
No divino e no profano.
No preço a pagar e na permuta.
No amor e no humor.
No ser e no estar.
To be. And SÓ to be.
Acolhendo todas as outras questões.
Amando-me e respeitando-me.
Por todos os dias da minha vida.
Até que a morte me separe.

Vestida pra Matar. Despida pra Morrer.

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Fui ver de perto tua vida sem mim.
Te lembrar vivo, existente, onipotente.
Tremi feito vara verde só de estar. De te saber, sem que você me soubesse.
Lembrei que o que me faz permanecer nessa história vai muito além dos devaneios que divido com travesseiros e guardanapos.
Vai além, muito além, do pensamento.
Ainda é real. Ainda treme. Ainda é meu.
De um lado, eu. Inteira, vermelha, tremida, entre os passantes.
Do outro, você, semeando poesia entre pipas, danças e chapéu de três pontas.
Não sei mais o que há no meio e tomou o lugar do fio luminoso que nos unia.
Nessa tua vida sem mim, o que há no meio – se é que há algo no meio – não te permite me enxergar.
Eu, ainda tremida, diante do teu olhar desfocado.
Vestida pra matar, não achei o alvo.
Despida pra morrer, com desejo de múltiplos suspiros, saí de mansinho.
Guardei tudo pra mim e juntei meu decote aos poucos colarinhos.

A Dois Passos do Paraíso

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Colocaram um pedaço de paraíso à venda.
As fotos caíram no meu colo e, quando me dei conta, ganhei um mundo novo.
Um que eu nem sabia querer. Eu, urbana e amante do mar, me percebi querendo aquele lugar. Querendo com o coração.
Querendo, com a alma, uma cachoeira no quintal, o abundante verde que me abraçou na infância, o fogão à lenha na casa de paredes caiadas, no meio de um bosque.
Desejei, sem pestanejar, um silêncio do qual eu sempre fugi.
Um refúgio encantado, pra onde eu pudesse correr toda vez que a paulicéia, desvairada, tentasse me engolir.
É claro que eu não tenho cacife pra ter esse lugar agora. Mas me ficou claro o sonho de um lugar mágico, perto daqui.
Ganhei um doce, inusitado e claro objetivo. A longo e lindo prazo.
Me vejo, já, com o som alto, na estrada que me ligará a dois pontos.
E a partir de hoje visualizo o terceiro ponto, que fará o mágico vértice de luz.
Não faço questão dos carneiros e cabras, pastando solenes no meu jardim, mas quero, muito, a tal casa no campo onde eu possa ficar do tamanho da paz.

Making Love

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Ele me espera, de joelhos, na cama. Quase em posição meditativa.
Como quem ora antes da refeição. E mastiga devagar.
Me reconecta com lugares essenciais, que tilintam entre o todo meu e o cósmico.
E me ama sem pressa. Sem regra. Sem roupa. Sem máscara.
Me ama sem pensar.
E fazendo esse amor iluminado, com a sensação de transformar profano em sagrado, sou absolutamente inteira.
Paradoxalmente inteira e dividida. Somada. Ligada numa tomada. Tomada de amor.

CÂMBIO. DESLIGO.

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A você, que escolheu me perder pra sempre.
Que fez questão de me doer de novo. De reacender a luz. Apagar e bater a porta, por pura crueldade (pura? Duvido).
Que por um ego descontrolado, saiu da casinha depois de tanta cachaça e me puxou pelo braço pra falar de amor.
Entenda, menino, de uma vez por todas, que se você não precisa de ninguém é muito pouco provável que alguém precise de você.
Além de você. Que não se acha mais fora de textos não escritos de próprio punho.
Que o silêncio de depois, abafa o grito do amor. E que não há de ser exatamente amor o que precisa mergulhar num alambique pra se fazer ouvir.
Entenda que não é justo jogar nego fora, aparecer do rejunte pra acordar coelhos esquecidos em cartolas e sair andando, como se nada tivesse acontecido.
É isso. Nada aconteceu.
Pior. Aconteceu e não há quem assine. Não é de ninguém. Brecha de luz em cativeiro abandonado, sem refém.
Paguei o resgate. Saí andando por outros jardins. Meus. Lindos. Floridos.
Entenda, querido, que o outro tem alma. coração e vida. Que o outro pulsa e independe da tua existência. E que tuas palavras, jogadas ao vento, ecoam no interno guardado.
Mas depois de tanto discurso, depois de tanto texto que não cola na ação, teus bilhetes de amor não vão pro mural. não moram em agendas. não dormem em gavetas. não iluminam carteiras.
Teus bilhetes, menino, vão pro lixo. Porque você não assina. Porque você assassina cada palavra.
E o que ecoa, no pulsar de quem ainda te gosta, seja por hábito, amor ou desamor, há de achar o mesmo fim.
A porra da lata de lixo dos amores perdidos e cartas sem remetente.

Dona Realidade

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A realidade é uma senhorinha de humor instável, que grita até se fazer ouvir.
Ou até que você leve-a para cortar o cabelo e comprar roupas novas.

Trilhando

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Vez ou outra ainda coloco os discos do falecido na vitrola. Deixo aquelas músicas viverem e paro, principalmente, pra me escutar.
Mentira. Não paro. Sigo, me ouvindo. Elas não me dizem mais as mesmas coisas, mesmo que não tenham alterado uma única palavra.
Me lembram o que foi e me gritam o que não foi. O que não era. O que fingiu ser.
Se gritam usadas, ainda mais que eu, por não terem tido a opção de não participar.
Eu as desculpo. Gosto delas. Elas me levaram a mágicos lugares. Nos embalaram, me enganaram, mas continuam comigo.
Ainda olho torto pra algumas, poucas.
Rio pras que me faziam chorar. Levo umas pra passear. Me despeço, docemente, de outras.
Elas nada têm a ver com o vagabundo que tinha outra família e foi comprar cigarro.
Depois de rasgar o luto e quebrar o retrato que habitava o altar, danço, colorida.
Com elas e mais tantas outras, novas amigas. Faço ciranda pela sala e escrevo trechos nas paredes.
Pra me lembrar do melhor. O melhor em mim. Pra lembrar que o melhor de nós foi uma grande mentira.
Uma encenação que começou com aplausos em cena aberta e terminou sem plateia.
Fiquei no palco, por horas, ouvindo nossa trilha. Trilha que hoje é inteira minha.
Mesmo que outro alguém me tire pra dançar, me fazendo de novo par.

MORNO

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Houve um tempo em que todo dia eu achava que você poderia aparecer. No meio da tarde, no cair da noite, nos meus amanheceres.
Com o tempo – de novo ele – passei a me preparar para o contrário. Todo dia podia ser dia de você não vir.
Entre idas e não vindas, passei a buscar equilíbrio, esse, tão compreendido nas minhas teorias. Me pareceu prático.
E o único meio de caminhar contigo. O caminho do meio. Que pode não ser morno.
Pior, ou melhor, passei a atribuir qualidades ao morno, concluindo que ele pode ser delicioso. Aconchegante. Demorado. Prazeroso.
Sem riscos de choque térmico.
Morna é a primavera (ó. voltei a florir!). Morno é o entardecer. O pôr do sol. O corpo sem febre.
A água que dá pra ficar por horas.
Morno é o melhor dos mares. A marola. O banho do santo. É o não excesso.
Morno é o leite com açúcar que minha vó tomava antes de dormir. É o prato feito, guardado no forno.
Morno é o que acalenta. O cafuné no meio de tudo.
É o prazer sem queimar a língua. Sem queimar a largada. Sem queimar o filme. Nem etapas.

Que o medo de esfriar não nos tire o prazer do morno.
Porque morno é o que contém o calor de antes, com a tranquilidade do agora.
Morno é meio.
E meio é a imensa parte entre o começo e o fim.

A Florista

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Pro menino, copo de leite.
Pra você, boca de leão.
Pra mim, comigo ninguém pode.
Praquele, Maria sem vergonha.
Pra nós, amor perfeito.
Pra sempre, primavera.
Pra Guimarães, rosa.

Avec Moi

0

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Com ti
Senti.
Per me.
Com te.
Sem conter.
Com ter.
Tento.
Contento.
Contente.
Contato.
Com tato.
Com Tati.

DESPIR-SE

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(do baú)

Tantas e variadas são as maneiras de desnudar-se por essa vida. Na juventude era mais fácil arrancar a roupa. Tudo durinho, no lugar (se é que há um lugar), convidativo, com sabor de frescor. E se não encontrasse o que dizer, no meio das primeiras vergonhas nuas, o corpo garantia uma (quase) falsa segurança. Muitas mãos, poucos talheres. Muita vontade, pouca experiência. Muita crença, pouco pensar. Bora lá, se jogar no corpo do outro e deixar-se invadir. Descobrir os cheiros, os gostos, os toques, sem retoques. Explodir no primeiro gozo e querer ser pra sempre Big Bang.
Com o tempo, não sei se pela força da gravidade ou por essa coisa que a gente tem em cima do pescoço, fica mais difícil pagar peitinho. Se a moleca romantizava tudo, a mulher teve que engolir os novos tempos, querendo ou não. Antes do Big Bang, tanto bang bang. Quantas vezes foi mais fácil jogar o vestido pelos ares com desconhecidos, por pouco importar o que o fulano vai achar depois? Algumas, nem durante. E quantas tantas e inesquecíveis outras, a perna bambeou com queridos atrapalhados lutando contra o fecho do sutien?
Aí você descobre que tem gente que te deixa nua muito antes da cama. Que vai tirando suas máscaras, saia, meias e calcinha sem que você perceba. Que te toca em lugares que aquela jovem era tocada sem se dar conta. Ela não fazia contas. Tinha tempo e bunda dura.
No meio de um papo, do tempo e da intimidade que aceitou o convite a sentar, você percebe estar fazendo um lento streep tease. Percebe-se úmida pós frase e olhar certeiro. Vê-se entregue, num sobretudo invisível. Inteira e do outro. Pronta pra entregar o sobretudo aos entretantos.

Corta!

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Eu, cansada, disse que ia embora.
Ele não me puxou pela mão.
Não me pediu pra ficar.
Não esboçou um mísero “que pena”.
Não deslizou a mão pela porta, depois de fechada, como que pra me sentir, ainda, do outro lado.
Não titubeou.
Não tocou a maçaneta.
Não correu pra me buscar na esquina.
Não me deu a cena de comédia romântica.
Eu bati a claquete.
Ele topou.
Sem próxima tomada.
The End, no meio do filme.

Dormir com as galinhas, pra matar as pulgas.

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Dormi antes da hora que as dores aumentam.
É de noite que tudo aumenta, lateja, arde, grita.
Que a gente escuta alto o que é dito baixinho.
Que a gente imagina ouvir o que nem foi dito.
Dormi com as galinhas e quase cantei na janela, pro galo desgovernado.
Antes que o sonho me escolhesse.
Antes que qualquer história me pegasse.
Depois de tudo?
Depois de tudo, acordei.
Antes do sol, pra descobrir qual é a grande viagem.
Antes dos passarinhos, dos vizinhos, do pão quente.
Antes cedo, pra tudo que falha.
Antes sempre, pra tanto que tarda.

Miopia

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miope
de perto é tão nítido.
de longe tudo embaça.
é isso.
tô com miopia de você.

Movimento

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Mesmo quando parece parado, tudo está em movimento.
leve mente.
leve move mente.
……move mente.
leve lovemente.
leve love move.

Visão Imparcial

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Gosto de brincar com as palavras.
E com você.
Ser levianinha que se aninha.
Gueixa entre as queixas.
Gosto mesmo é da visão de camarote,
que eu tenho no teu cangote.
De não pensar na morte,
de acreditar na sorte.
Da leve sensação de rumar pro norte.

(Para ouvir depois de ler):

Desatando Nós

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(texto/desafio, proposto por Pri Nicolielo. Assunto: FUGA)

No auge do nosso vazio, tive vontade de fugir de mim. Parei tudo. Me olhei no espelho, pra me lembrar gente. Pra me encarar de frente.
Mulher. Inteira. Metade de cu é rola. Mulher inteira. Foi o que me repeti incontáveis vezes, diante da minha imagem refletida.
Era de nós que eu precisava fugir. Desesperadamente. Precisava nos abandonar, na calada da noite.
Sem gritos. Sem brigas. Sem pedidos desesperados.
Decidi fugir sem bilhete. Sem a esperança, já defunta e gelada, de que você me procurasse.
Plano de fuga traçado, mãos à obra.
O que era nós? O que era laço? O que era eu? O que levar na mala? O que de mim se perdeu, grudado em nós?
Ouvi todas as nossas músicas. Li tudo que lhe remeti. Chorei tudo que me doeu. Sorri tudo que me preencheu.
Botei fogo nas ilusões guardadas. Rasguei promessas mofadas. Deixei meu anel no criado, completamente mudo.
Na mochila: minha fé, inéditos sorrisos, o espelho, a esperança de um norte e uma receita nova de suspiros.
Fiz uma tereza com histórias só minhas, pessoais e intransferíveis. Foram elas que me ajudaram a sair pela janela, sem olhar pra trás.

Comanda

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Duas porções de desejo.
Um amor pra viagem.
A conta paga no crédito.
Sonho de sobremesa?

Loucurinhas

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(do baú de 2012)

Assim como eu gosto dos pequenos prazeres, tenho uma queda pelas pequenas loucuras.
Acho que a vida fica mais divertida. Pode ser qualquer loucurinha.
Mudar a cor das unhas, dos cabelos ou pular de paraquedas. O importante não é o tamanho.
Cortar a franja no espelho, meter uma flor no cabelo, jogar cor nas paredes, mandar mensagem embriagada (uma ou outra, porque muitas vira loucurona ou burrice), pular no mar da paixão sem bóia.
Mesmo quando tem uma placa sinalizando perigo. Virar uma tequila ou uma página mal escrita da vida, ir a um show sozinha, dormir de manhã.
Adicionar um desconhecido, procurar um conhecido distante, passar o sábado à noite lendo e sair pra dançar numa terça.
Pegar o carro e só tirar o pé do acelerador quando chegar à praia. Mamar uma lata de leite condensado no meio da madrugada.
Ir a outra cidade atrás de um abraço com destinatário certo. Passar um dia sem relógio ou celular.
Conversar com estrelas. Pedir sinais. Papear com o invisível, falar sozinha, cantar alto no meio do trânsito. Fazer uma sopa de letrinhas e brincar com as palavras.
Dançar pela casa. Rabiscar o rodapé.
Arrancar a página de um livro. Comer o prato preferido até explodir, sem culpa. Se jogar numa feijoada de manhã.
Meter um nariz de palhaço. Beber no gargalo, comer com a mão. Render-se a um beijo inesperado. Rever o filme favorito quinhentas vezes.
Sair de peruca. Arrancar o bigode cultivado por anos. Deixar presentes em portarias.
Andar na chuva. Falar na língua do pê. Preparar surpresas e saborear quando se é surpreendido. Rasgar pacotes. Fazer um interurbano. Rabiscar o corpo.

Receita: pitadas de humor, uma gota de bom senso, loucura a gosto.

Dona Leveza

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Sequestrei a leveza.
Trancada no quartinho dos fundos, que me pareceu confortável para um cativeiro, ela entristeceu. Emudeceu. Não me olhou nos olhos.
Ninguém pagou resgate. Foi só então que entendi que ela merecia, no mínimo, o quarto de hóspedes. Um belo café. E a porta aberta.